Coromandel Espírita: A imperatriz Teodora e a Reencarnação

Colunistas Coromandel Espírita

 Por Ernane Borges Diniz

Orígenes é conhecido como um dos maiores sábios do cristianismo de todos os tempos. Foi praticamente o criador da nossa teologia cristã. Com apenas 17 anos tornou-se reitor da Universidade de Alexandria, o mais importante centro intelectual do mundo, no século III.

O que Santo Agostinho foi para a teologia ocidental, Orígenes foi para a teologia oriental; de sabedoria e inteligência tão brilhantes, que ganhou o título de “Adamantino”. Além disso, era dotado de um profundo misticismo e de virtudes raras. Chegou a se mutilar para, segundo ele, poder servir melhor ao Evangelho de Jesus Cristo. Isso, sem dúvida, foi um exagero.

Porém, como sempre acontece com as pessoas cujo brilho ofusca a vista dos invejosos, ele foi vítima da inveja por parte de Demétrio, bispo de Alexandria. Mas Orígenes, num exemplo de humildade e obediência a seu superior eclesiástico, procurava cumprir todas as suas ordens, pois desejava ordenar-se padre. Demétrio, porém, negava-lhe a ordenação. Foi então que o bispo de Jerusalém, Alexandre, e de Cesaréia, Teoctisto, ofereceram a Orígenes a ordenação, o que é obvio ele aceitou. Com isso, Demétrio ficou irado, tentando de todos os meios prejudicar o nome de Orígenes perante a Igreja. E, infelizmente, Demétrio consegui o seu objetivo.

Porém, perante Deus, a História do cristianismo e mesmo perante a Igreja de hoje, Orígenes é admirado e citado frequentemente por estudiosos e pesquisadores da Bíblia, da Filosofia e da Teologia. Embora ele tenha tido algumas de suas ideias condenadas pela Igreja, duas delas continuam sendo atacadas normalmente, e não só por católicos, mas também, por protestantes e evangélicos.

E foi o polêmico V Concílio Ecumênico de Constantinopla II, de 553 DC, convocado pelo Papa, por pressão do Imperador Justiniano, que condenou suas doutrinas célebres: a Preexistência do Espírito e a Apocatástase (restauração de todas as coisas), as quais a humanidade, hoje, está amadurecida para entendê-las, julgá-las e aceitá-las. (CHAVES, 2002, pp. 162-163).

A Igreja teve alguns concílios tumultuados. Mas parece que o V Concílio de Constantinopla II (ano 553) bateu o recorde em matéria de desordem e mesmo de desrespeito aos bispos e ao próprio Papa Virgílio, papa da época.

O imperador Justiniano tem seus méritos, inclusive o de ter construído, em 552, a famosa Igreja de Santa Sofia, obra-prima da arte bizantina, hoje uma mesquita muçulmana. Era um teólogo que queria saber mais de teologia do que o papa.

Sua mulher, a imperatriz Teodora, foi uma cortesã e se imiscuía nos assuntos do governo do seu marido, e até nos de teologia.

Contam alguns autores que, por ter sido ela uma prostituta, isso era motivo de muito orgulho por parte das suas ex-colegas. Ela sentia, por sua vez, uma grande revolta contra o fato de suas ex-colegas ficarem decantando tal honra, que, para Teodora, se constituía em desonra.

Para acabar com esta história, mandou assassinar todas as prostitutas da região de Constantinopla – cerca de quinhentas.

Como o povo naquela época era reencarnacionista, apesar de ser em sua maioria cristão, passou a chamá-la de assassina, e a dizer que deveria ser assassinada, em vidas futuras, quinhentas vezes; que era seu carma por ter mandado assassinar as suas ex-colegas prostitutas.

O certo é que Teodora passou a odiar a doutrina da reencarnação. Como mandava e desmandava em meio mundo através de seu marido, resolveu partir para uma perseguição, sem tréguas contra essa doutrina e contra o seu maior defensor entre os cristãos, Orígenes, cuja fama de sábio era motivo de orgulho dos seguidores do cristianismo, apesar de ele ter vivido quase três séculos antes. Agindo assim pensava poder “cancelar” a reencarnação, uma Lei Divina.

Como a doutrina da reencarnação pressupõe a da preexistência do espírito, Justiniano e Teodora partiram, primeiro, para desestruturar a da preexistência, com o que estariam, automaticamente, desestruturando a da reencarnação.

Em 543, Justiniano publicou um édito, em que expunha e condenava as principais ideias de Orígenes, sendo uma delas a da preexistência.

Em seguida à publicação do citado édito, Justiniano determinou ao patriarca Menas de Constantinopla que convocasse um sínodo, convidando os bispos para que votassem em seu édito, condenando dez anátemas deles constantes e atribuídos a Orígenes [O Mistério do Eterno Retorno, pág. 127-127, Jean Prieur, Editora Best Seller, São Paulo, 1996].

A principal cláusula ou anátema que nos interessa é a da condenação da preexistência que, em síntese, é a seguinte: “Se alguém diz ou sustenta que as almas humanas preexistiram na condição de inteligências e de santos poderes; que, tendo-se enojado da contemplação divina, tendo-se corrompido e, através disso, tendo-se arrefecido no amor a Deus, elas foram, por essa razão, chamadas de almas e, para seu castigo, mergulhadas em corpos, que ele seja excomungado! ”  [A Reencarnação e a Lei do Carma, pág. 47, William Walker Atkinson, Ed. Pensamento, São Paulo, 1997 e [O Mistério do Eterno Retorno, pág. 127-127, Jean Prieur, Editora Best Seller, São Paulo, 1996].

Assim, deste o V Concílio Ecumênico de Constantinopla II, de 553 DC, a Igreja e suas derivadas, condenam a Reencarnação.

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